quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A SUBSTITUIÇÃO DA VIDA

Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. 1 João 5:12.

Todos nós nascemos com uma vida contaminada pelo pecado e imprópria para a santificação, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, Romanos 3:23.
O pecado é antes de tudo a incredulidade diante da pessoa de Cristo Jesus. Somos uma raça incrédula por natureza. O principal trabalho do Espírito Santo no mundo é nos convencer do pecado. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; João 16:8-9.
Pecado é a descrença que nos separa da glória de Deus e nos faz apagados à nossa própria glória. O pecador é um aventureiro investindo com garra em sua glorificação pessoal através de sua ascensão em busca dos píncaros da fama e celebridade.
A vida do pós-Éden encontra-se impossibilitada de fazer parte nas relações dos membros efetivos da família de Aba, em razão desta necessidade de grandeza e reconhe-cimento. O ego acha-se inflamado e obeso. É gordo e dorido. Magoa-se por qualquer coisa em que é contrariado e gosta de exibir o seu desempenho como troféu de conquista e aceitação. A vida egoísta é contrária à vida de santidade espiritual.
Há muita gente que tem uma vida justa perante a lei, mas é descrente em relação à pessoa de Cristo. Tem uma vida honesta e digna de admiração humana, embora cética e sem valor espiritual diante de Deus. É a vida de Adão poluída pelo pecado que não será admitida no Reino de Deus, sem que seja substituída pela vida da ressurreição.
A vida adâmica não tem concerto. Ela é egoísta até a medula. O homem natural só pensa em si, mesmo quando está fazendo o bem para os outros. A bondade humana é interesseira, exigindo reconhecimento na linha de frente, até nas entrelinhas. Por traz das realizações filantrópicas residem os desejos de consideração, prestígio e notabilidade.
O egoísmo é a marca registrada da vida do velho Adão. Inclusive a sua espirituali-dade vem sempre configurada em egolatria por todos os seus estilos santificados em vitri-ne alumiada e demonstrados em passarela fantasiosa. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Lucas 18:11-12.
O ego com o seu egoísmo são imprestáveis para o Reino de Deus. A vida egoísta é uma existência sem futuro e deve ser substituída pela Vida eterna do próprio Deus. O novo nascimento envolve a troca da vida egoísta de Adão pela vida ressurreta de Cristo.
Esta vida não tem direitos humanos. Não faz parte de sindicato. Não se ensober-bece com seu crescimento em santidade, nem se sente ferida com o ostracismo e o desca-so que lhe são impostos. É vida de liberdade e de libertação.
O homem velho tem que morrer. Não há remédio que cure, nem ensino que e-duque esta natureza rebelde do pecado. Cristo se encarnou no Jesus histórico para poder crucificar a vida de Adão que nós herdamos como raça, a fim de nos dar, em seguida, a nova vida da ressurreição, a vida eterna, mediante a fé na sua pessoa e obra.
Sem a substituição da vida de Adão pela Vida de Cristo não há salvação. É verda-de que a velha criatura pode fingir ser uma nova criatura. Uma das características do ve-lho homem é a mentira, o engano, a trapaça. Sendo assim, a hipocrisia é a túnica colo-rida que a casta adâmica usa, tentando se travestir de nova criatura.
Segundo Jesus, a religião dos descendentes de Adão só se preocupa com a aparên-cia. É uma existência de casca ou fachada. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, por-que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interi-ormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Mateus 23:27.
Ser um religioso adâmico é fantasiar-se de santinho do pau oco, usando uma más-cara insuspeita de requintada idealização, para tentar ser aceito. Com este mito de que a realidade se encontra no brilho do verniz, a pseudo-santidade é praticada no muque e a sofisticação desta alegoria, bagunça a celebração e o contentamento no íntimo. O des-crente fantasiado de crente é uma burla cruel e uma esquizofrenia alucinante.
A vida criada, mas contaminada pelo pecado, tornou-se inadequada para a com-posição da família de Deus. Por mais educados ou por mais religiosos que sejamos fica impossível ter uma existência de filhos de Aba transportando a vida psicológica de Adão. A alma egoísta tem que morrer. A alma que pecar, essa morrerá. Ezequiel 18:20 a.
A vida da alma descendente de Adão foi criada, é humana e encontra-se contami-nada pelo pecado da incredulidade ou egoísmo. Não há salvação para o ego e seu egoís-mo. Esta vida do egoísmo tem que morrer, pois é imprestável para a condição essencial de filhos de Deus. A vida da alma tem que ser, necessariamente, substituída pela Vida ressurreta, espiritual e eterna do Filho de Deus. Caso contrário, está tudo perdido.
Aba só tratou com dois homens aqui na terra. O primeiro Adão e o último Adão. O primeiro, no Éden, e o último, no Calvário. Do primeiro, herdamos, naturalmente, a vida da alma infectada pelo pecado. Somos interesseiros. Do último, herdamos, pela fé, a Vida espiritual do Seu Filho trazida da sepultura, para nos tornar filhos de Deus. Esta é a vida que nos salva eternamente. Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. 1 Coríntios 15:45.
Cristo teve que se encarnar na raça de Adão, a fim de morrer como o último A-dão, isto é, como o derradeiro da raça adâmica e ressuscitar como o segundo homem, cabeça da nova criação, para nos levar a morrer e ressuscitar juntamente com ele, e, deste modo, substituir a vida da alma adâmica pela sua Vida eterna. Ego morto, ego deposto.
Sem a troca da vida da alma pela Vida que vivifica o espírito, não há regeneração. Ninguém pode se tornar filho de Deus trazendo a vida de Adão. A vida egoísta é inconci-liável com a realidade espiritual da família de Deus.
Entre o primeiro Adão e o último Adão tem a morte da cruz compartilhada como o marco que sinaliza o término da vida psique da raça adâmica. Entre o último Adão e o segundo homem há a ressurreição de Cristo como a garantia da substituição da vida psi-que pela Vida zoe que nos torna novas criaturas. Isto não significa ser membro de igreja.
A vida psicológica descendente de Adão não tem evolução espiritual. Ela pode se tornar uma existência educada, treinada pela religião, rica em conhecimentos teológicos, mas nunca será uma realidade espiritual decorrente da Vida de Cristo. Pode crescer no saber religioso, jamais na santificação. Um indivíduo instruído na igreja, mas sem novo nascimento, pode se tornar um teólogo, nunca um filho de Aba.
A morte do ego em seu egoísmo é requerida pela fé na Palavra de Deus. Para que exista a Vida do cristianismo é preciso que se morra com Cristo para o ego. Cristão é al-guém que morreu com Cristo, a fim de Cristo viver a Sua vida através dele. Salvação sig-nifica: não mais em Adão, mas em Jesus Cristo. "Não eu, mas Cristo" é o resultado final da obra salvadora realizada pelo nosso Senhor Jesus Cristo.
Paulo entendeu isto muito bem. Falando do seu ministério apostólico, ele disse ter trabalhado muito mais do que todos os outros apóstolos. Isto parece pura arrogância. Parece, mas não é. A vida de Paulo espelhava e espalhava a suficiência de Cristo do seu interior para todos os recantos por onde andava. Paulo era um morto na cruz, vivificado pela vida de Cristo. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo. 1 Coríntios 15:10.
Antes de qualquer coisa a vida cristã é a substituição da vida natural do egoísmo pela vida sobrenatural de Cristo. Se formos dirigidos pelo nosso ego, de modo natural, então não poderemos ser governados pela Vida de Cristo na pessoa do Espírito Santo, do modo sobrenatural. A vida do ego é conflitante com a Vida do Espírito e, além disso, não há santificação de ego. Para que eu possa viver no espírito, pelo poder do Espírito Santo, é preciso que eu morra para o meu ego e seja renascido com a Vida de Cristo.
Graças a Deus por que eu já morri na cruz com Cristo. Eu não tenho que me ma-tar. Se o egoísmo é a causa dos meus problemas, agora ele já foi crucificado com Cristo. "Não mais eu, mas Cristo" é a única realidade que transforma o velho Adão em nova criatura. Aleluia, pois esta obra já foi consumada totalmente na pessoa de Cristo. Amém.
Que o Espírito Santo nos revele este fato. Glenio Fonseca Paranaguá

A VISÃO CELESTIAL

"Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial". Atos 26:19.
O apóstolo Paulo, em sua defesa perante o rei Agripa, faz alusão à visão celestial que o marcou definitivamente em toda a sua jornada terrena. Ele foi um homem demarcado, no caminho de Damasco, pela revelação de Jesus Cristo crucificado e ressurreto.
Saulo era um fariseu convencido, convincente e fanático. Foi um perseguidor implacável da Igreja, até o momento desta súbita visão. Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Atos 9:3-4.
Esse judeu apaixonado viajava com outros correligionários exaltados na busca dos cristãos dispersos, para persegui-los e exterminá-los. De repente, uma aparição imprevista. Jesus resolveu dar as caras no caminho e mudar a agenda deste maníaco religioso.
A visita era bem reservada, ainda que ele estivesse andando na companhia de um contingente de sectários, também odientos como ele, porém só Saulo teve aquela visão. Isto aponta para a exclusividade desta revelação. Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém. Atos 9:7.
O Senhor queria ter uma prosa em particular com Saulo e, para isto, revelou-se apenas a ele. Os “cúmplices”, bem ali, ficaram de fora da reunião, embora ouvissem a voz, não tinham ideia do que ocorria. A revelação de Abba é sempre subjetiva. Ele trata com cada filho individualmente. O Pai não fala com bandos, mas com cada um de per si.
Neste encontro temos uma apresentação exclusiva para um homem escolhido. A visão especial tem como objetivo especificar a seleta eleição de Saulo e a sua missão como mensageiro do evangelho aos gentios. Era uma reunião acordada nas eras eternas.
A visão da pessoa de Cristo mudou, por completo, o caráter de Saulo. O “vidente” físico ficou, evidentemente, como um cego, enquanto o “ceguinho” tornou-se um profeta, vendo o que pouca gente vê no reino de Deus. Depois da visão celestial caíram as escamas dos seus olhos e, em seguida, Paulo passou a enxergar a suficiência do evangelho da graça.
Paulo avistou a singularidade do evangelho como ninguém, garantindo que vira a Cristo ressuscitado, ao enumerar várias testemunhas deste fato: e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. 1 Coríntios 15:8.
A visão celestial mudou a sua visão terrena. Saulo era um cego espiritual, ainda que fosse um vidente religioso; enquanto Paulo acabou se tornando em um novo homem de visão, esclarecido pela revelação celestial. Quando viu que as pessoas que ele vinha perseguindo eram autênticas encarnações do Cristo ressurreto, tudo mudou em sua vida.
Por meio desta visão, o religioso Saulo foi convertido no apóstolo Paulo. O perseguidor da Igreja foi transformado num perseguido pelo judaísmo. A religião perdeu um dos seus promotores mais importantes e o evangelho ganhou o seu principal propagador.
A falta da visão celestial bem clara leva o povo a perecer aqui na terra. Aquele que não sabe para onde vai, ou está totalmente perdido, ou, já chegou, e mesmo assim, não sabe onde está. Sem um objetivo definido, ninguém sabe qual é o seu destino. A questão básica de qualquer viagem é o alvo a ser alcançado. O nosso alvo é: Cristo crucificado.
A visão desta igreja é: “conhecer a Cristo crucificado e fazê-lo conhecido em todo o lugar, por meio da graça”. Aqui temos uma visão celestial que precisamos enfocar com a maior diligência e realidade espiritual possíveis. Não há nenhum outro alvo maior do que este, para tratar, neste mundo, com os egos inflados e inchados.
A vida cristã se baseia, acima de tudo e de todos, em conhecer, pessoal e intimamente, a Cristo Jesus crucificado e ressurreto, através da graça plena: antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno. 2 Pedro 3:18. Esta ordem e, nesta ordem, é fundamental para o desenvolvimento saudável e maduro da verdadeira vida espiritual.
Sem o crescimento na graça, não há o adequado crescimento em Cristo. Aliás, fora da graça não há a menor noção, nem crescimento em Cristo. Disse George Herbert, “o conhecimento não passa de estultícia, a não ser que seja orientado pela graça”. Justiça e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem. Salmos 89:14.
Quando Cristo se encarnou como o Verbo de Deus, ele veio pleno de graça e verdade, suprindo a deficiência de nossa condição humana. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. João 1:17.
Pela graça, nós cremos na pessoa e obra de Cristo crucificado. Pela graça, nós somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem. Pela graça, nós desenvolvemos a nossa salvação, uma vez que, ela mesma financia e patrocina, tanto o nosso querer como o efetuar, segundo a boa vontade de nosso amado Abba.
Conhecer a Cristo crucificado é um assunto pessoal, ensinado de modo particular pela Escola permanente do Espírito Santo, favorecido e subvencionado somente pela graça suficiente do Cordeiro de Deus. Não se trata de uma educação preliminar, ou como querem alguns, simplesmente, um jardim da infância da fé cristã.
Se alguém disser que o novo nascimento é o inicio da vida cristã, esta pessoa encontra-se totalmente equivocada. Tudo começa em Deus, na eternidade passada, e culmina em Deus, na eternidade futura. Sendo assim, a nossa eleição, vocação, justificação e vivificação precedem à fé, ao arrependimento, ou seja, à conversão e à regeneração.
O nosso teste na história é antecipado por fatos espirituais eternos. A redenção das almas, pelo sangue do Cordeiro de Deus, foi notória antes da fundação do mundo, (1Pe 1:17-21), embora, o Cordeiro tenha sido imolado apenas nos alicerces do crônos. Mas, deste sacrifício, não tomam parte aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Apocalipse 13:8.
A visão celestial tem a ver com a realidade espiritual em sua dimensão eterna. Conhecer a Cristo crucificado é uma avaliação que parte antes do Alfa e vai até depois do Omega, ou seja, é um assunto de eternidade a eternidade, de modo contínuo e constante.
O conhecer a Cristo crucificado, além de ser eterno, é, também, compartilhado. Não basta eu conhecê-lo. É preciso que Cristo seja conhecido, deste modo, pelo maior número de pessoas. Quem foi beneficiado pelos favores do evangelho da cruz, torna-se um evangelista. Não é cabível ao salvo não se interessar pela salvação dos ensimesmados.
Não basta conhecer a Cristo crucificado e ressurreto, como o nosso estilo de vida cristã. Agora, é imperioso, na prática, fazê-lo conhecido a todos e em todo o lugar, por meio da graça, isto é, rigorosamente, pela graça. “Tudo é pela graça na vida cristã, do início ao fim”, já dizia D. Martyn Lloyd-Jones, mas é bom relembrar, pois muitos objetam.
A vida eterna é definida por Jesus, como o conhecimento íntimo e relacional dele mesmo e do seu Pai, o Deus absoluto e singular. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. João 17:3.
Ninguém poderá conhecer o Pai, senão pelo Filho. Ninguém poderá conhecer o Filho, a não ser através da sua expiação na cruz com o Filho, isto é, com Cristo. Conhecer a Cristo crucificado é o auge da realidade espiritual na Bíblia, destinada à fé cristã.
Para o apóstolo Paulo, o fundamento do evangelho encontra-se na loucura da cruz de Cristo. Ele não avistava outra realidade mais significativa do que a extravagância da cruz, por isso, colocou a ênfase de sua visão celestial, nestas palavras imorredouras. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. 1 Coríntios 2:2.
Tanto o seu saber teológico como a sua ética pessoal se baseiam na excelência da pessoa e obra de Cristo crucificado. Para ele, a sua própria glória reside nesta ocorrência: Mas longe esteja de mim, gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo. Gálatas 6:14.
Se alguém supõe que existe alguma sabedoria maior do que em Cristo crucificado, então eu gostaria de sublinhar este texto, dentro do seu contexto, como a grande visão celestial que norteou a vida do apóstolo Paulo: Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 1 Coríntios 2:6-9. Glória ao Pai por tão grande visão celestial. Glenio Fonseca Paranaguá

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O APRENDIZ DE LAVA-PÉS. VII

A escola do encurtamento da pessoa notável é dificílima. Agachar é algo agastadiço para quem se acha majestoso. Todos nós fomos picados pelo vírus que promove a moléstia do espichado, que se estica demais perante os outros anões. Somos uma raça viciada pelos desejos de ampliação e vivemos à procura de pódios e jiraus que nos façam sobressair.
Conseguir desapear o ego do pedestal é coisa complicada. Fazer arriar o auge da fama no plano do pó ou da lama é cabeludo demais para quem se descobre careca de tanto se inquietar com a cobiça dos degraus. Os altares nos alavancam ao alcance dos cumes.
Pedro era uma pedra bem alta. Ele se expunha como se fosse um monte acima dos cimos mais elevados entre os outros discípulos ciumentos. Veja sua indagação, quando Jesus aproximou-se de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim? João 13:6.
A questão tem um quê de altivez. – eu, no teu lugar, não lavaria os pés de ninguém. Nem mesmo de uma pessoa tão elevada quanto a minha. Quem é o chefe não pode rebaixar-se a este nível insignificante dos serviçais. Aquele que manda no negócio deve se assentar na cadeira do Presidente e nunca se curvar para fazer os serviços de um servente.
No reino de Deus a escala de valor é totalmente diferente da grandeza no esquema humanista. Os reis, neste mundo, têm muitos servos. O Rei celestial veio ao planeta terra para servir a muitos. A ênfase do governo de Cristo é a disponibilidade para o serviço.
O pecado lançou Adão numa plataforma da excelência, isto é, num patamar acima dos céus, tornando-o soberbo; enquanto a salvação conduz o ser humano ao húmus untado com a saliva divina, para humildemente servir à maior cifra dos ensoberbecidos.
O Deus que serve aos arrogantes é o único que pode exigir a prerrogativa de poder salvar os atrevidos que não deixam lavar os seus pés. Só o Homem humilde, por essência, é capaz de tocar na altivez do presunçoso por excelência. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Marcos 10:45.
O Deus que se humilha para servir a Pedro, o inquebrantável de dura cerviz e rosto de pedra, acaba abatendo o seu orgulho em chamas, levando-o a lavar os pés dos que permanecem se achando superiores, a fim de matriculá-los na classe do rebaixamento.
A aula da nossa mortificação com Cristo é diária e não tem formatura nem diploma. Quero apenas apontar aqui, duas lições básicas: Deus leva em mais consideração aquele que não se leva a sério em seus direitos, nem se preocupa em ser vip. Quem é humilde nunca saberá que é, pois no dia em que souber algo de sua humildade, aperfeiçoará o seu orgulho.
Agostinho de Hipona deixou essa emenda: “Deus não se torna maior se você o reverencia, mas você se torna maior se o serve humildemente”. Mas cuidado com o show da humildade, pois ele não tem platéia. Se você e eu o estivermos servindo, certamente estaremos lavando os pés de alguns soberbos, tão arrogantes quanto nós. Não discutamos: se somos discípulos de Cristo, que todos nós nos acocoremos e, mãos a obra no novo ano.
Bem-aventurado seja 2011 na vida dos acocorados vivendo para a glória de Abba.
Abba, amado, tu nos criaste totalmente diferentes do que somos agora. O orgulho tomou conta de nós, da cabeça aos pés, e não sabemos como descer deste pedestal. O curso de aprendiz de lava-pés é muito complexo, pois temos exercícios novos e difíceis a cada minuto. Dá-nos a revelação do Homem crucificado que não se importava com as cusparadas na cara, nem fazia conta da coroa de espinhos na cabeça. Ainda que tudo tenha sido muito doloroso, ele não abriu a sua boca para reclamar, nem reivindicou a glória de ser Sua Majestade nos céus.
Quero aprender a lavar os pés dos meus semelhantes com a mesma postura daquele que sendo o Maior se fez o menor, e, como o Servo-Senhor teve aqui, ao se agachar, a condição ímpar de realizar um serviço tão humilhante, sem, contudo, ser humilhado. Concede-me a graça de nunca chamar a atenção dos outros pelos serviços prestados. Obrigado porque tu não és obrigado a cuidar de nós, mesmo assim, tu nunca desistirás de cada um nós, isto é, dos que crêem. Aleluia.
No Nome do teu Filho, o desejado das nações alcançadas pela graça, Jesus. Amém.
Do aprendiz de lava-pés. Glênio Paranaguá.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O SIGNIFICADO DOS DOIS NATAIS

Há dois nascimentos divinais na história humana.
Jesus nasceu aqui na terra, para que eu e você morrêssemos juntamente com ele. Cristo morreu na cruz, para que nós renascêssemos, em novidade de vida, por meio de sua ressurreição.
Ele nasceu na família de Adão, a fim de levar os homens a renascerem, pela graça, na família de Deus. Ele se tornou participante da nossa natureza humana, para que nós fossemos co-participantes da sua natureza divina.
O Criador ficou dependente da criatura, para retornar a criatura como dependente do Criador. Ele se esvaziou de sua gloriosa posição divina, para nos esvaziar da nossa glamorosa pretensão humana.
Na categoria humilde de Deus-Homem, na cruz, a humanidade o rejeitou. Na categoria de Homem-Deus, na ressurreição, a humanidade foi aceita incondicionalmente por seu amor furioso.
O natal de Deus na manjedoura precede o Natal do homem na sepultura. O Deus esvaziado é a sustentação do homem, pleno da graça divina. Bem-aventurados sejam todos os que crêem na suficiência de Cristo Jesus, que nasceu em Belém para nos fazer cidadãos da Nova Jerusalém.
O nascimento sobrenatural de Deus na estrebaria nos estriba até a realidade do nascimento espiritual, como filhos de Abba, ligados ao trono divino. Glória a Deus nas alturas e paz aos homens que ele ama de paixão.
Ditosos Natais aos afortunados filhos de Abba.
2011 com o Pão integral da graça. O Pão nosso, de cada dia, bem quentinho.
Do mendigo-padrão e aprendiz de lava-pés. Glenio Paranaguá

O APRENDIZ DE LAVA-PÉS. VI

Deus encontra-se com o ser humano em posições díspares e antípodas. Eles são distintos, isto é, dessemelhantes, mas também, Deus está numa ponta, na cabeça, como o Criador, enquanto o homem, no lado oposto, acha-se nos pés, como a criatura.
Antípoda, no português, é pé versus pé. Aponta para a posição dos antagônicos. Mas, neste caso há um paradoxo, quando examinamos o Criador do universo, o Deus Altíssimo, se abaixando até ao patamar da criatura e se rebaixando, como ninguém, até ao vale da sombra da morte, a fim de lavar os pés de criaturas altivas, que pensam que são deuses.
Os homens das portas sem maçaneta e sem ferrolhos. Os tipos da existência trancada como se fossem as Mônadas de Leibniz ou o Huis Clos de Sartre, protestam nos bastidores. A turma da roda dentada ou, do homem máquina, inventou o Natal em dezembro para combinar com o pinguço Dionísio, disfarçado de Noel, mesclando a velhusca Babilônia com a Babel moderna.
O nascimento de Deus entre os homens é um disparate lógico sem tamanho. O Criador encaixado numa cocheira e dependente da criatura é, no mínimo, uma loucura cósmica sem procedentes.
Não há nada mais equivocado do que ver o Deus Criador enrolado em cueiros e mamando numa cria adolescente da sua criação. O Onipotente dependente do ser humano, que ele mesmo criou aqui na terra, é uma amostra terrível de humilhação, contrária ao estilo terrificante que a orgulhosa criatura desenvolveu, não aceitando, nem ainda ser como um super-homem ou mesmo um semi-deus no panteão dos invocados.
Assistir ao espetáculo do Deus Todo-poderoso enterrado nos braços do húmus humanizado que se divinizou a si mesmo, é inconcebível para esse terrorismo humano que aspira ao trono do Criador. É pasmoso aceitar o Criador a serviço da criatura, servindo, agachado, aos seres soberbos que não se agacham nem para se servirem.
É por tudo isso que os aspirantes a deuses querem demover a comemoração da vinda de Cristo do calendário. Eles inventaram uma mentira universal no solstício do inverno no hemisfério norte, durante o mês de dezembro, e hoje, o Natal já é saudado simplesmente com: “boas festas”. Só que é festança das boas, essa festa da aceitação incondicional dos mendigos.
Mas, o nascimento de Jesus fala, antes de tudo e acima de todos, do Altíssimo esvaziado, encarnado, humilde, humilhado, dependente do Pai e dependendo de outros seres humanos arrogantes. Natal é a linguagem maior de Deus em estrutura humana, com endereço na terra, acocorado e com bacia nas mãos lavando os pés dos pedantes que querem viver em pedestais como se fossem divos autossuficientes.
Natal é a desconstrução da velha torre de Babel, com a sua proposta presunçosa de chegar ao céu pelos esforços suarentos de uma raça soberba. É a demolição dos edifícios antigos, mas pomposos, da envelhecida arquitetura humanista, que supõe merecer o reino de Deus pelo valor pessoal. É o esvaziamento do absoluto, sem perder nada de sua essência, vivendo como homem a grandeza do amor de Deus.
Querido Abba, como é grande o teu amor e como é minúscula a minha compreensão do que é realmente significante no teu reino. Eu e uma multidão de gente obesa, de ego rechonchudo, vivemos em desespero, absorvidos com o nosso lugar no pódio. Mas o teu Filho que podia se agarrar aos seus direitos de Deus tornou-se homem, sem nenhum direito, sem prestígio algum e acabou reduzido a um cadáver para poder vencer a morte e todos os traços do pecado que nos atormentam com a mania de grandeza.
Dá-nos a graça, na comemoração deste Natal, de sermos reduzidos pelo padrão da cruz ao único modelo que vale a pena se viver. Substitui o nosso ego gordo de orgulho, pela vida destituída de glamour; a vida humilde de Cristo Jesus. Concede-nos o apetite para comermos o Pão nosso de cada dia, nesta festa do contentamento eterno.
No nome do único Senhor que viveu na terra como servo, Jesus. Amém.
Do aprendiz de lava-pés, Glênio Paranaguá.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O APRENDIZ DE LAVA-PÉS. V

Os pés são os órgãos do corpo mais próximos ao solo. Ficam em contato com a nossa origem, ao rés do chão, isto é, no húmus. O ser humano é o húmus avivado pelo beijo de Deus na criação. O sopro divino foi quem deu a vida ao barro, ficando este de pé, mas solicitando a sua visibilidade sobre pés sujos. Seria por causa da sua raiz barrenta?
Alguma coisa estranha aconteceu nesse processo. Tudo aponta para o desejo de a criatura querer ser o Criador, como a causa dessa lama imunda pelo caminho. O pó alevantado através do hálito de Javé, agora quer ter a sua cabeça governando o cosmos.
A testa altiva e os pés empoeirados são as marcas de uma raça arrogante, embora com um destino cruel pela frente. O pecado nos deixou com uma aspiração ao trono celestial, mas aspirando sempre o pó da terra, enquanto viajamos rumo ao túmulo na areia. Almejamos ser Deus, todavia, não passamos de mortais a caminho da nossa origem.
O pó ao pó voltará. Isto é um fato incontestável. No entanto, a poeira agitada pelo fôlego divino supõe que seja o próprio divino em pessoa. O grão de areia não aceita nem mesmo ser um ídolo, um super-homem ou um semideus. Quer ser o próprio Deus.
A raça de Adão é uma turma de vasos de barro rachados, lascados e despedaçáveis, vivendo com arrogância, como se fosse um pelotão de divos gerenciando seus egos insatisfeitos.
Neste terreno argiloso nasce uma criança, de um lado com a índole do lodo, do outro, com a natureza divina. Jesus é o caulim perfeito esculpido na humanidade caída, enquanto Cristo é o Deus esvaziado, porém, a totalidade da Onipotência.
O Deus-Homem veio com a finalidade principal de destronar o barraco de sua obsessão de ser o Castelo real. É muito triste ver o sofrimento de um casebre mal-ajambrado, tentando viver como se fosse um Palácio maravilhoso. É lamentável notar a lama sonhando ser o brilhante solitário na coroa do Rei.
Foi aí, neste contexto totalmente aloprado, que o Soberano Deus, o Criador do universo, tomou a decisão de ficar de cócoras com uma bacia e a toalha, a fim de lavar os pés enlodados de uma gentinha enlouquecida pelo porte de ser graúda.
A lição tinha como objetivo expurgar os anseios de divinização dos vasos de barro, que não aceitavam a sua condição de argila entalhada ou o húmus de pé. Ora, se o humano é o húmus andando a pé, mas querendo sempre ser divino, então, o humilde é o divino vivendo como húmus, no humano, enquanto lava os pés dos seres humanos, com a psicose de serem divinos. Esta é a loucura existencial do evangelho e, ao mesmo tempo, a salvação da humanidade viciada por fama.
A coisa pega quando ouço a voz soprando suprema: Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. João 13:14. Tudo bem. O Senhor pode lavar os pés dos indigentes e continua sempre o Soberano, mas eu, como fico depois desta humilhação? O que vão pensar de mim?
– Você não se intitulou: Sua Alteza, o mendigo? Quem pode ser maior aqui na terra do que um filho de Abba? Quem pode ser mais insignificante do que um mendigo? Se você for um filho legítimo de Abba, você não se importará em ser um Zé Ninguém.
Abba, querido! Eis aqui a minha grande crise. Recebi Jesus e agora sou teu filho. Sei que faço parte da nobreza celestial, mas ainda vivo cá, nesta terra argilosa. Sou um vaso de barro muito metido. A questão é: mesmo sendo mendigo, é muito difícil lavar os pés de outros mendigos. Eu até lavaria os pés da rainha da Inglaterra, ela é apresentada como nobre por aqui, mas lavar os pés da ralé, desta gentalha suja, é demais para mim. Tem misericórdia da minha indigência enfatuada. Dá-me a revelação do Cordeiro, concedendo-me a graça de me acocorar contente, nesta missão de lava-pés.
No Nome dAquele que é sobre todo o nome. Jesus. Amém.
Do aprendiz de lava-pés, Glênio Paranaguá.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O APRENDIZ DE LAVA-PÉS. IV


O orgulho é poeira da minha estrada diária. Todos os dias os meus pés ficam sujos como o pó vermelho da minha arrogância roxa. Sou um altivo inveterado e não tendo a coluna de um invertebrado para me dobrar diante de uma bacia com água a fim de lavar os pés encardidos, fecho os olhos à minha lama, pois o que não aguento mesmo é a areia alheia.
Meu orgulho não me permite encurvar em presença de meus semelhantes. Sou capaz de conviver com a minha empáfia sem nenhum constrangimento, mas não tolero a soberba do meu próximo. A coisa que mais me incomoda é gente orgulhosa.
Que paradoxo! Tenho os pés encarvoados e não suporto os sebentos. Só pode ser mesmo coisa do orgulho vendo em outrem a sua imagem refletida na água turva. Não há quase nada que o orgulho se ressinta mais do que a vaidade de um ser parecido com ele. “O orgulhoso odeia o orgulho nos outros”. Cara de pau! Sê bento tu que és orgulhoso...
Agostinho de Hipona, chamado de o doutor da graça, disse que “o orgulho é o desejo perverso das alturas”. É como se fosse um nanico inchado supondo ser um colosso gigantesco, desafiando como acrobata na ponta de uma vara, a lei da gravidade no topo do Evereste. O pico do mundo é um mundo que pica as entranhas do altivo. Queremos a visibilidade pública no cume da cumeeira.
O Soberano, ao contrário do soberbo, desce dos píncaros da glória e vai até a cava mais funda da história humana para encontrar-se, de cócoras, com uma raça caída e enlameada que se acha superior, a fim de lavar os pés imundos desta gente ensimesmada.
Do sótão celestial ao porão da terra, o Deus encarnado fez uma viagem de humilhação com o propósito de desconstruir o mais terrível inimigo da felicidade humana. O egoísmo soberbo nos impede da celebração, quando os ventos sobram ao contrário.
Thomas Adams foi preciso ao dizer que, “o orgulho lançou o orgulhoso Hamã para fora da corte, o orgulhoso Nabucodonosor para fora da sociedade dos homens, o orgulhoso Saul para fora do seu reino, o orgulhoso Adão para fora do Paraíso e o orgulhoso Lúcifer para fora do Céu”. Posso até concluir igualmente: cuidado com o orgulho, pois só ele é capaz de nos tirar da participação na Casa de Abba como filhos legítimos.
Pedro quase foi lançando fora da escola do lava-pés por causa do seu rompante. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar, não tens parte comigo. João 13:8. Há algo errado em quem não se deixa lavar os pés de sua sujeira diária.

Mas, a questão vai um pouquinho mais longe ainda. O discípulo lavado, agora é transformado em mero lavador de pés. Ao rés do chão, próximo à sua origem no pó da terra, agacha-se um filho do Altíssimo, à semelhança do Soberano humilde, e, apanhando a sua bacia e toalha, se dá conta de sua missão mais elevada no discipulado do Agnus dei, ao lavar os pés poluídos de uma gentinha arrogante.
Querido Abba, esta lição é deveras difícil para mim. Não consigo me reconhecer suficientemente capaz de me ajoelhar perante o teu trono gracioso, para te pedir de coração: faze-me, de verdade, um lavador de pés. Mas não há alternativa. Foi o orgulho que colocou para fora dos recintos mais importantes, toda aquela gente graúda, que se achava maior que as outras pessoas. Por favor, mesmo sendo dificílimo, revela-me o caminho da cruz com Cristo para que eu seja desconstruído nEle, e assim Cristo em mim me substitua nesta tarefa tão humilhante de lava-pés.
No Nome que é sobre todos os nomes, Jesus. Amém.
Do aprendiz de lava-pés, Glênio Paranaguá