quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MIGALHAS QUE CAEM DA MESA

ALIMENTANDO GIGANTES OU FORTALECENDO PIGMEUS.
A vanglória e a autocomiseração são farinha do mesmo saco. As duas fazem parte de um único elenco e ambas chamam a atenção da platéia tonta. A primeira é o orgulho no pódio, enquanto a segunda é o orgulho no pó, com o rosto sujo, cheirando a poeira.
A vanglória gosta de exibir o seu sucesso, requerendo a boa imagem que nutre nos bastidores. A sua preferência é sempre falar das conquistas e demonstrar o valor majestoso do seu portfólio no palco. Vive à caça dos holofotes para a sua visibilidade pública.
Como são ricos os detalhes desse discurso vaidoso, que tenta esbanjar seus dotes, esnobando até mesmo os traços da humildade como se fossem integrantes de sua personalidade altiva. Ouvir atentamente esse tipo de conversa vangloriosa com quietude e mansidão é um exercício de profundo quebrantamento espiritual.
Por outro lado, na contramão da vanglória, embora ateado pelo mesmo fogo da arrogância, corre, com aparente discrição ou, tão somente, com a fisionomia anêmica, por falta de sangue nas veias, o autocompadecimento insuspeito. É o agiotismo do coitadinho.
Aqui é que mora um grande perigo. Aquilo que parece ser humildade, não passa de orgulho mascarado. A cara lavada, sem qualquer traço de maquiagem, com trapos e fiapos pendurados, pode ser o fio mais sutil da malha presunçosa.
Lutero, o reformador, disse, certa feita: "tenho mais medo do meu coração justo, do que do Papa e dos seus Cardeais". Eu também: tanto o meu gigante guloso e obeso que tento alimentar com banquetes espetaculares, quanto o meu pigmeu raquítico, aquele me sinto constrangido a fortalecer, chamando a atenção, são ferozes demais. Neste caso, eu sempre enfrento uma guerra mundial com inimigos poderosíssimos em meu íntimo.
A vanglória e a autocomiseração são aparentemente opostas, no entanto, formam um par idêntico de irmãs gêmeas e siamesas geradas pelo velho orgulho de sempre. Ser ilustre e não ser vaidoso é tão difícil como ser humilde sem ficar amarrotado pelos cantos.
A humildade é uma das mais raras de todas as virtudes do ser humano, porquanto, todo aquele que se reconhece humilde já se envolveu numa escandalosa empáfia. Como é complicado demonstrar uma humildade sem alarde!
Vou findar o texto com um enigma proverbial: Melhor é ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os soberbos. Provérbios 16:19. Afinal das contas, cadê os humildes para que possa admitir minha arrogância e festejar com eles a humildade do Cordeiro como o dom da graça em nosso favor?
Se alguém pretende encontrá-los por aí, então se acocore com uma toalha e uma bacia nas mãos e ainda um bom microscópio; talvez haja algum pé que aceite ser lavado sem sapato alto ou timidez de inchado. Quem se propõe a tal façanha? Ai de mim! Não há alternativa para mim; só se for por Cristo em mim. GLÊNIO FONSECA PARANAGUÁ

terça-feira, 8 de novembro de 2011

MIGALHAS QUE CAEM DA MESA

O CANTO EM LUGAR DO LAMENTO
A minha história na terra começou com um choro estridente, pois eu já cheguei ao mundo berrando. Mas, parece que esta é uma narrativa muito comum a todos nós. Se não estou equivocado, o bebê que não chora, quando nasce, morre. Além do que, diz um velho adágio popular: "quem não chora não mama".
Por outro lado, a cultura deste mundo velho privilegia o lamento, o queixume, a choradeira. A criança chorona e birrenta sempre é atendida e o nosso padrão de conduta é nos condoer de quem se lastima, fazendo da lamúria uma moeda valiosa nos negócios que pretendemos levar vantagens.
O gemido agrega mais adeptos ao partido dos coitadinhos do que o riso. O sofrimento desperta a compaixão de outros sofridos ao formatar o sindicato dos plangentes. Por isso, a ladainha é o estilo mais propalado na reza diária daqueles que querem chamar a atenção, e a dor de cotovelo é a cantiga número um dos chifrados.
Aí de mim é o discurso preferido das vítimas. Mas, o hinário dos filhos de Abba começa com Aleluia de Handel. Os alforriados, mesmo sofrendo, têm sempre um canto em tom maior a entoar. Ninguém neste mundo está isento da dor e do sofrimento, embora a sua permanência tenha um tempo de validade limitado.
O salmista canta com esperança: Porque não passa de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira. Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã. Salmo 30:5. Segundo entendo, ele está dizendo que a correção é apenas por um instante, enquanto a graça é para sempre. Para os filhos repreendidos, as lágrimas secam rápido na face, ao passo que a festa da madrugada continua pelo dia eterno.
A minha tendência humana é lamentar. É chorar as pitangas. E sempre acho adeptos pela via da lamúria como companheiros neste coral dos sapos coaxando na lama, tão prontos a destoar da cantata dos redimidos.
Mas o culto dos alcançados pela graça cultiva o louvor em meio às chamas ardentes e dá concerto na cadeia escura, com os pés no tronco e os lombos lanhados. A turma da vida que nasce da morte costuma cantar no ardor do temporal, enquanto os descendentes do velho Adão só conseguem lamentar.
Pelo canto se descobre se a ave é do dia ou da noite. As canoras cantam à luz do Sol em espetáculo melódico de alegria. As noturnas são assombrações das trevas, além de serem agoureiras, quando grasnam, gritam e gemem os seus lamentos sombrios.
Assim, também, pela linguagem, se pode descobrir quem é filho de Deus ou quem é filho do Diabo. Lamento dizer, lamentavelmente, que a nossa fala lamentável, que se expressa sempre por lamentação ou lamúrias, não nos coloca na condição de membros efetivos do coral dos filhos de Abba.
Cantem filhinhos amados, cantem com alegria. Falem a linguagem da edificação. Louvem em plena tormenta, pois o nosso Pai é santo e reina entronizado entre os louvores dos seus filhos libertos e jubilosos. Aleluia. Glenio Fonseca Paranaguá

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ABUNDÂNCIA BOA

"Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez;" (Filipenses 4:12 RA)

Quase todos os cristãos sabem o próximo versículo na ponta da língua, ainda que nem todos saibam encontrá-lo na Bíblia. Mas, curiosamente, se perguntarmos, a maioria não saberá este. Abundância é bom, escassez não.
Vivemos dias de uma oferta igrejista (ou igrejeira, não sei) na qual o que é bom é de Deus e o que não é bom é do inferno. Mesmo que o conceito de bom seja obscuro e cinzento. Meu time de futebol ganhar o campeonato é bom? É de Deus? E os irmãos que torcem para o outro time? Como fica? E candidato político? E ganhar causa na justiça?
Meu irmão entenda uma coisa de uma vez por todas: Paulo usa o termo "tanto" justamente para dizer que, embora tendo passado por muitas coisas, ele sabe encontrar no Senhor a força. Tudo posso (depois de experimentar o bom e o ruim) no Senhor que me fortalece. Não é triunfalismo, é experiência de vida, maturidade.
Quem não aceita ser humilhado jamais será honrado. Quem nunca teve fome não valoriza a fartura. Quem só conhece abundância não sabe do que estou falando. Glória a Deus pela vida que levo, na qual não me falta nada do que preciso. Não tenho tudo que eu quero, mas tenho tudo de que preciso. Glória a Deus por que, quando passei aperto, o Senhor foi comigo e vivi e venci para poder hoje te dizer: a foça vem Daquele que traz sobre nós o dia de sol e o chuvoso, o frio e o quente, o abundante e o escasso.
Não estou declarando que Deus tenha prazer no nosso sofrimento, mas que a dor ensina a gemer não duvide. A abundância é melhor, a riqueza é melhor, a fartura é melhor. Mas a melhor abundância de todas é a da presença do Pai, é a da força do Pai sobre nós. O resto é tão fútil e vazio que dá pena.
"Pai, Te amo. Obrigado pelo que Tu és, independente do que já me deste e que não é pouco. Obrigado por me ensinar a depender de Ti como eu preciso. Eu te amo, por que Tu nunca me faltaste."
Mário Fernandez - www.ichtus.com.br

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Aprendendo a orar ‘O Pai Nosso'

A vida que termina sob uma lápide com epitáfio é muito curta e sem sentido. Aqui e agora é pouco para quem tem fome do ilimitado.

Ser humano é ser alguém relacional. A solidão é uma tragédia e nós precisamos de nos comunicar. Mas, nós temos carências mais profundas, muito além de membros da fam'lia e de bons amigos. Somos uma raça com anseios transcendentes. Temos sede de significado eterno e almejamos compartilhar de uma intimidade pessoal com Alguém que nos ame incondicionalmente.
A vida que termina sob uma lápide com epitáfio é muito curta e sem sentido. Aqui e agora é pouco para quem tem fome do ilimitado. Fomos criados para um relacionamento sem os limites da morte, por isso gritamos por uma comunhão verdadeira. Dialogar é uma conversa entre duas pessoas amigas. É algo amistoso. Pedir é uma solicitação entre um carente e alguém com condições de atender. É coisa de necessitado. Orar é um diálogo entre um filho amado e o seu Pai amável. É assunto familiar.

Oração não é rezar. Não é repetição. Não é alguma coisa decorada. É uma conversa que pode até ter algumas petições, todavia nunca será uma lista de clamores e súplicas. É um bate-papo na sala íntima dos domésticos da fé. Portanto, Jesus nos ensinou a orar assim: Pai nosso. Pai, não padrasto. Pai, alguém que ama loucamente seu filho. Oração é o dialogo do filho com o seu Abba. É um assunto de solitude e jamais de solidão. Estar só, sem, contudo, encontrar-se sozinho. É viver acompanhado, entretanto, longe dos barulhos de fora. Trata-se de uma conversa com o Pai nosso do céu, que se importa conosco na terra. O Pai que é Pai, mas também é Rei. É Pai-Rei e não Rei-Pai. Ele não é mais Rei do que Pai e o seu reino de Pai é um reino de amor.

Como filho, quero experimentar a santificação do teu Nome, ó Pai. Porém sou incapaz de cumprir esta ordem tão significativa e tão elevada, por isso mesmo, eu te rogo que me faças um instrumento da tua santidade sob o governo do teu reino paternal. Não por imposição, nem por esforço, mas por tua graça.

Venha o teu reino de misericórdia e graça; dá-me sede dos teus próprios anseios. Tu sabes que a minha vontade está comprometida com os meus desejos egoístas, sendo assim, só a tua vontade que é boa, perfeita e agradável, pode me fazer um agente da tua vontade, capaz de fazer todas as coisas, de boa vontade.

Pai, eu tenho fome. Mas não é fome de pão de padaria. É fome do Pão do céu; fome de aceitação plena, sem qualquer rejeição. A broa nossa de cada dia não consegue satisfazer o meu apetite voraz daquilo que é permanente; da realidade eterna. O pãozinho francês, que se come de uma vez, só mata a fome do freguês por algumas horas. A minha miséria não se contenta com aquilo que é breve, transitório, provisório. Eu tenho fome mesmo é de Jesus, o maná de cima, o maná fresco do dia, e de cada dia.

Depois de ter sido alimentado hoje, com o Pão quentinho, eu tenho que tratar agora com os que me ofenderam há pouco tempo. As ofensas de ontem, graças à tua misericórdia, prontamente foram perdoadas. Eu sou grato porque na tua casa não há lata de lixo, nem precisamos acumular a sujeira, pois o lixeiro leva tudo imediatamente. Porém, como ninguém vive neste mundo de espinhos sem alguma espetadela, e, como eu também, acabo ferindo ao meu próximo, venho te pedir: Ó Pai, perdoa-me com o perdão do teu Filho, para que eu possa perdoar aqueles que me feriram. Por favor, não me permitas que eu seja um carcereiro aprisionado na cadeia dos ressentimentos de meus ofensores. Assim como o Senhor me perdoou, eu também estou pronto a perdoar.

Pai, eu sou tão débil e sujeito às terríveis tentações. A carne é fraca e o inimigo é astuto. Mas, eu não venho te pedir que me livres das tentações. O que eu te peço é que me sustentes, com tua graça, quando estiver passando pelas provas. Se eu não for tentado, eu vou ficar tentado a crer que sou especial, e, deste modo, ficarei mais arrogante ainda do que tenho sido. Abba querido, eu te rogo: Sê tu, a minha torre forte na hora das tormentas insuportáveis e, quando o maligno estiver me açoitando, livra-me dele. Quero confessar, com alegria, que pertenço ao teu reino. Sou teu filho guardado pelo teu poder e almejo ainda, de boa vontade, viver somente para a tua glória. Reitero, com grande júbilo, o que me tem ficado notório a cada dia: o Reino, o Poder e a Glória são atributos permanentes de tua Pessoa excelsa. Amém.

Na oração do Pai nosso, nós temos os avenidas por onde podemos passear em comunhão com o nosso amado Abba. Cada um das sete vias nos conduz a uma intimidade extraordinária. Então, ao orar, ore assim, sobre qualquer motivo:
1. Fale com o seu Pai.
2. Suplique a santificação do seu Nome.
3. Peça a governabilidade do reino paterno em a sua vida.
4. Aceite a sua vontade acima de tudo.
5. Coma do Maná de Deus, cada dia.
6. Creia no perdão divino e perdoe os que o golpeiam.
7. Fique debaixo da proteção durante a tentação, suplicando a libertação do maligno. Finalmente, permaneça adorando a Deus, reconhecendo que o Reino, o Poder e a Glória pertencem apenas à Trindade Santa.
Viva sempre com ações da graças e louvores no seu coração. Desconheço o autor, se alguém souber me informe.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

MENTALIDADE DE FILHO MAIS VELHO



Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos. Lucas 15:29.

Este versículo faz parte de uma das mais conhecidas e queridas parábolas ensinadas por Jesus, a “parábola do filho pródigo”. Esta parábola, diferentemente da maioria, traz mais de uma mensagem. A mais comentada e pregada é a maneira graciosa com que o pai recebe o filho gastador, que se arrepende após ter dissipado a herança recebida. Ou seja, trata da mensagem do amor perdoador que Deus tem para com os pecadores.
Alguns títulos dados a esta passagem são: “a parábola do filho pródigo”, “o filho pródigo”, “a parábola do filho perdido”. Observamos, com isto, que a ênfase dada a este texto recai sempre sobre o filho mais novo. Todavia, no versículo 11, Jesus inicia sua fala da seguinte maneira: “certo homem tinha dois filhos”. Sendo assim, nosso olhar precisa estar atento não somente ao que acontece com o filho mais novo, que é o mais famoso da história, mas também ao que acontece com o filho mais velho.
E para entendermos o que acontece com o filho mais velho, é preciso destacar o contexto em que Jesus conta esta parábola. No início do capítulo 15 de Lucas, está a explicação das três parábolas que se seguem. Jesus estava, mais uma vez, falando a publicanos e pecadores.
O texto nos diz que essas pessoas aproximavam-se de Jesus, achegavam-se a ele. Jesus não só os recebia, como também fazia refeições com eles (verso 2). Na verdade, não era Jesus quem procurava por estas pessoas, mas elas é que eram atraídas por Jesus. Por outro lado, ao mesmo tempo que Jesus atraía os proscritos da sociedade, ele também incomodava, em muito, um outro tipo de pessoas, os religiosos daquela época, ou seja, os fariseus e os escribas. Para estes, ajuntar-se com pecadores, até mesmo para ensinar a Lei, era algo proibido. Comer com estas pessoas, então, era o mesmo que dar boas-vindas a elas e isto era algo inaceitável.
Esta introdução do capítulo 15 do Evangelho de Lucas é essencial para o entendimento da parábola do filho pródigo. O cenário, segundo o qual ela é contada, é este: Jesus atraía pecadores e comia com eles; e este seu comportamento incomodava os religiosos, que viviam murmurando. Por causa desta reclamação dos religiosos, Jesus, então, apresenta três parábolas. A primeira (versículos 3 a 7), que é a da ovelha perdida. A segunda (versículos 8 a 10), que é a da dracma perdida. E a terceira (versículos 11 a 32), que é a do filho pródigo. A essência da mensagem das duas primeiras parábolas é mostrar o amor de Deus pelo pecador e que é Ele quem busca o perdido e não o inverso. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. João 6:44. Nós o amamos porque ele nos amou primeiro. 1 João 4:19.
Destas três parábolas contadas por Jesus, a parábola do filho pródigo é a mais detalhada. Nesta parábola, existem duas seções principais. A primeira, do versículo 11 ao 24, mostra a graça de Deus, através do seu amor pelos pecadores, que é a força motriz do Evangelho. A segunda seção, do versículo 25 ao 32, mostra a indignação do filho mais velho, resumida na seguinte fala: há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos. Lucas 15:29.
Alguns estudiosos sugerem que esta parábola possui um título inadequado, que ela deveria se chamar a “parábola dos dois filhos perdidos”, numa clara indicação de que, muito embora o filho mais velho estivesse em casa, seu coração estava, de fato, muito distante do pai, tão perdido quando o mais novo. Alguns até sugerem que esta passagem deveria se chamar “a parábola do filho mais velho”, numa demonstração de que a mensagem transmitida refere-se mesmo a este último. A intenção maior é destacar a reação inesperada e egoísta daquele que, aparentemente, era o filho obediente e bem comportado.
Já foi sustentado, por alguns, que a porção do texto que trata do filho mais velho (versículos 25 a 32) deveria ser dissociada da primeira seção, que trata do filho mais novo. Este é um raciocínio equivocado. Em verdade, as duas seções precisam ser lidas e interpretadas como sendo uma só. É bem possível afirmar que o alvo desta terceira parábola é exatamente contrastar as reações do pai e do filho mais velho diante do pródigo, ou seja, a passagem do filho pródigo existe para se poder demonstrar e evidenciar a reação e a mentalidade do mais velho.
Quando nos lembramos do murmúrio dos escribas e fariseus (versículo 2) diante das confraternizações de Jesus, conclui-se que a parábola do filho pródigo tem mesmo este sentido de tratar com os religiosos: todos os excessos do filho mais novo não lhe fecharão a entrada do céu, pois ele veio arrependido até seu pai; mas todas as virtudes do filho mais velho, de nada lhe aproveitarão. Portanto, a passagem trata não dos pecados como empecilho para o céu, mas, por incrível que possa parecer, das “virtudes”. Na realidade, é a justiça própria escondida pelo manto da virtude que impede o filho mais velho de ser reconciliado com o pai. Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Lucas 15:7.
Jesus quis ensinar que Deus recebe e perdoa pecadores. Todavia, mais ainda, quis ensinar que aqueles que se consideram justos aos seus próprios olhos, estes não têm lugar no reino dos céus. Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos, perguntavam aos discípulos dele: Por que come [e bebe] ele com os publicanos e pecadores? Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores. Marcos 2:16-17.
Na verdade, Jesus quer mostrar com esta parábola que tanto um filho como o outro estão perdidos, que ambos se rebelaram, ainda que um tenha feito isso ao ser muito mau e o outro, ao ser extremamente bom. O irmão mais novo representa o homem que não conhece a Deus, está separado Dele e vive por seu autoconhecimento. O irmão mais velho representa o fariseu, o religioso que faz da sua conformidade moral e de seus esforços, um meio para se salvar. O pecado do irmão mais novo é imaginar que não precisa de Deus. O pecado do irmão mais velho é imaginar que é o próprio Deus, o seu próprio Salvador.
Tendemos a nos ver sempre como o filho mais novo, como se fôssemos o filho pródigo e nos regozijamos ao ver o amor acolhedor de Deus, nosso Pai, à nossa disposição. Todavia, é muito comum também imaginar que não somos tão estimados por Deus, como deveríamos ser; que não somos tão reconhecidos por Ele, como deveríamos ser; que não somos tão recompensados por Ele, como deveríamos ser; que não somos tão valorizados por Ele, como deveríamos ser; e nos indignamos quando alguém é mais estimado, mais reconhecido, mais recompensado, mais valorizado, do que nós. Esta é a mentalidade do filho mais velho. E ele está tão perdido quanto o filho mais novo.
O autor Timothy Keller, ao falar desta parábola, argumenta que era o orgulho por suas boas ações, e não o remorso por suas falhas, que impedia o filho mais velho de participar do banquete da salvação. O problema do filho mais velho era seu farisaísmo, o modo como ele usava seu histórico moral para colocar Deus e as outras pessoas em uma posição de dívida e para poder controlá-los, para que fizessem o que ele desejava.
O que separa o filho mais novo de Deus é, obviamente, o pecado. E pecado significa errar o alvo, significa incredulidade. O que separa o filho mais velho de Deus é o pecado da justiça própria. As Escrituras dizem que a nossa justiça é como “trapo de imundície”. Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia. Isaías 64:6a. O filho mais velho lembra o pai que tem direitos, pois o serve há muitos anos e nunca o desobedeceu. Em outras palavras, quer mostrar o quanto é justo e merecedor.
Por outro lado, o que nos reconcilia com o Pai celeste é a justiça de Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Romanos 3:22). A justiça de Deus nos foi imputada, mediante a obra redentora de Cristo, na cruz do Calvário. É assim que somos justificados de nossos pecados, é assim que somos tornados justos diante de Deus. A grande pergunta que nos é feita e não quer calar é: como pode o homem ser justo para com Deus? Jó 9:2b. Não há meio algum de se obter esta justiça, a não ser pela graça do Pai. Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. Romanos 3:24.
Onde você está baseando a sua salvação? Em seus méritos? No seu tempo de “serviço” para Deus? Você busca controlar Deus por meio de sua obediência a Ele e a sua lei? Você transforma sua própria história pessoal em créditos colocando Deus em uma posição de devedor? Você é um justo que não precisa de arrependimento? Lembre-se que a salvação é pela graça, unicamente pela graça. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Efésios 2:8-9.
Em nossa história pessoal com Deus, começamos como filhos mais novos, pródigos. Mas, antes de terminarmos a história como filhos mais novos que retornam à casa do Pai, arrependidos e perdoados, mudamos de história, e assumimos a posição e a mentalidade de filhos mais velhos, cheios de justiça. Só que os filhos mais velhos também estão perdidos. Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Tito 3:5-7.
Lembre-se que, agora, a justiça de Deus se manifestou SEM lei. Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que creem; porque não há distinção. Romanos 3:21-22. Se você tem alguma coisa do que se orgulhar; acha que tem algum direito para reivindicar; ou, sente-se, algumas vezes, injustiçado; você está transitando no perigoso território das obras, isto é, você está na posição do filho mais velho, contabilizando seus feitos. Contudo, a salvação não vem de obras. A glória é somente de Deus e Ele não a divide com ninguém. Fernando Prison - www.palavradacruz.com.br

COM CLAREZA OU PELA METADE?

"Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei;" (Gênesis 12:1 ARA)

Interessante que, para Noé, Deus deu tantos detalhes sobre sua missão e para Abrão foi na base do "corre, rapaz!!!". Totalmente diferente com um e com outro. Noé, faz um barco com tantos metros de comprimento, da madeira tal, com altura tal, com uma porta, pinta de tal cor... Com Abrão é apenas "se manda".
Como Deus trata com você? Suas missões são sempre claras e detalhadas com todas as especificações que um engenheiro poderia desejar? Ou nem sempre? Ou nunca é assim?
Nem um nem outro é melhor, entenda. O importante é que Deus tenha falado com eles e conosco, indiferentemente de ter dado mais ou menos detalhes, de ter sido genérico ou específico. Dureza é nunca ouvir nada, não saber nem se tem algo para fazer muito menos do que se trata. Na minha experiência com o Pai, ao longo de já uns 24 anos, muito mais fui tratado como Abrão do que como Noé. Já recebi ordens claras, mas foram menos do que as que vieram pela metade. Muito menos.
Na minha mente exata, matemática, engenheirística, cheia de pensar... Que desafio! Quanta ansiedade à toa, se tanto conheço o Deus a quem sirvo. Mas dou-me conta de que Abrão estava sendo preparado para ser Abraão, nada mais nada menos que o pai da fé (certeza do incerto). Para quem tem fé, não é necessário explicar muita coisa, ou talvez nada. Aleluia, se estou sendo preparado pra qualquer coisa com Deus, estou dentro! E feliz!
Não estou dizendo que Noé não tinha fé, pois isso seria uma bobagem tremenda. Mas ele recebeu mais detalhes por que Deus quis assim. Será que ele teria tido dificuldade de fazer a arca com menos informações? Nunca saberemos, mas podemos ter certeza de uma coisa: Deus queria uma arca e conseguiu. Queria um homem de fé em outra terra e conseguiu. Comigo Ele há de conseguir o que deseja. E com você? Vai ser difícil?
"Pai, nada se compara a andar contigo, ter a Tua mão nos guiando e sabendo que estamos fazendo a Tua vontade. Faz de mim alguém obediente e confiante independente de quantos detalhes eu tenha."
Mário Fernandez - www. ichtus.com.br

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O DEUS INCANSÁVEL

Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Isaías 40:28.

Por definição, Deus não precisa de coisa alguma. Ele não carece de nada. Se ele precisasse de algo, seria um ser necessitado, em que faltava alguma coisa; porém, na Bíblia ele se manifesta por sua aseidade, isto é: um ser que se basta a si mesmo. Deus não precisava criar nada do que existe para se realizar.

Ele não requer qualquer realização. O Deus coletivo, revelado no seu nome Elohim; (um plural majestático e mais abrangente do que um aumento quantitativo) é a realeza real realizada realmente por sua natureza Divina.

A Trindade se satisfaz a si mesma. Nela não há carência em seu íntimo, nem solidão em seus relacionamentos. Além do que, só o Deus triúno, todo suficiente, é capaz de satisfazer a carência de todos os carentes.

Deus é o eterno antes da criação e nele não há os efeitos do tempo. Ele nunca envelhece, nem se desgasta. Não há entropia na eternidade, por isso, ele é o mesmo, tão eterno no princípio quanto o é no fim, já que ele nunca será mais do que é, uma vez que é sempre o mesmo em qualquer tempo ou fora dele.

Para a Divindade não há passado, nem futuro. Há um presente permanente; um tempo que não tem tempo, nem compasso, nem cronômetro, nem espaço. Deus não se cansa e jamais se fatiga. Ele nunca perde energia de seu ser.

Depois de ter criado o universo, Deus continua o mesmo, sem a exclusão de um átomo sequer de energia do seu ser Divino. Ele não se consome por qualquer ação que fizer.

A Trindade é laboriosa, mas não se exaure. Trabalha sempre sem jamais sentir cansaço ou enfado. O descanso do Deus trino na criação não é o de férias remuneradas por tempo de serviço, muito menos o de um empregado que saiu da empresa por causa de estafa. O descanso era apenas a conclusão plena da sua obra perfeita.

Em Deus não há stress, mas em suas ações há um certo strike, como num jogo de boliche. Ele derruba toda presunção que quer entender e explicar a grandeza do seu trabalho. Ele trabalha e não se cansa, mas nós, seres arrogantes, ficamos cansados só em pensar na grandeza incansável do labor Divino.

Jesus foi muito claro quanto ao trabalho Divino: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. João 5:17.

Aqui também temos uma grande dificuldade de compreensão desta realidade, visto que lidamos com o eterno e o temporal ao mesmo tempo. Fica muito difícil entender o incansável Divino com o cansaço humano. É complicado encontrarmos um Deus exausto no esqueleto humano.

Na dimensão divina, Cristo nunca se cansa, mas em sua condição humana, Jesus se cansou: Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta. João 4:6.

Com certeza aqui reside o mistério da redenção. O Verbo encarnado se cansou. O Deus que nunca se cansa, acaba fatigado pela sua natureza humana. Não podemos separar as duas naturezas da pessoa de Cristo Jesus.

Mesmo assim, este era um cansaço que vinha promover o descanso da humanidade consumida pelo enfado do pecado. A encarnação Divina trazia no seu âmago a proposta do descanso para as almas cansadas. Jesus se cansou para nos conduzir ao descanso da sua graça plena, através de nossa morte e ressurreição com ele.

Nisto ele foi incansável até a sua ressurreição. Aquele que é o Eterno e nunca se cansa, entrou no tempo e cansou-se por algum tempo, a fim de produzir um descanso eterno para todos que receberem o seu convite: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Mateus 11:28.

Paradoxalmente, o ser humano cansado não aprecia a proposta do descanso oferecido por Deus. O Senhor oferece descanso ao cansado, mas ele não quer: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; mas não quiseram ouvir. Isaías 28:12.

Para o presunçoso, especialmente o religioso legalista, mais vale um pouco de esforço do que a abundância do descanso. Ele prefere ser um conquistador ao pódio do que ser um herdeiro na rede.

É difícil Sua Alteza se reconhecer um mendigo vivendo da graça, e mais complicado ainda é receber a esmola da misericórdia.

Por causa do nosso sistema pedagógico do mérito e a nossa soberba pecaminosa, fica impossível, para o ego, receber algo que não lhe tenha custado algum esforço, sem antes ser convencido pelo poder do Espírito Santo e pelo quebrantamento por meio das marteladas do sofrimento.

Do ponto de vista espiritual, o ser humano é avesso a tudo o que é rigorosamente gracioso. Ele sempre quer corresponder com alguma participação por menor que seja. A graça o ofende em cheio.

Um morto espiritual não tem nada espiritual para poder contribuir para a sua vida espiritual, pois está morto. Um defunto, fisicamente falando, só evolui em sua podridão, e um morto espiritual, vivendo no pecado, cresce apenas em sua incredulidade pecaminosa.

Ninguém pode viver neste mundo se primeiro não for gerado fisicamente, vindo depois a nascer. Ninguém pode renascer espiritualmente, se antes não for vivificado, pelo poder do Espírito Santo, através da semente divina ou o esperma espiritual que é a Palavra de Deus.

O ser humano natural não busca a Deus naturalmente. Ele é um fugitivo de Deus e amante exclusivo de si mesmo.

O pecado tornou o gênero adâmico inimigo de Deus, criando, ele mesmo os seus deuses à sua imagem e semelhança. Aqueles que foram criados a imagem e semelhança do próprio Criador, agora criam os seus deuses à imagem de sua criação decaída.

Assim, a religião criada pela criatura fraturada pela queda, acaba faturando um saldo positivo aos seus olhos, e criando um sistema de aceitação pelo desempenho. Na religião, o que tem valor é a conduta movida à justiça própria.

Já vimos que Deus, sendo Deus, não pode se cansar. Ele não se desgasta, nem perde energia alguma. Mas o que me assusta em tudo isso é a incansável persistência de Deus em buscar um fugitivo que não lhe quer de modo nenhum.

Vejamos como Deus fala do seu povo, Israel: Quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam da minha presença; sacrificavam a baalins e queimavam incenso às imagens de escultura. Oséias 11:2.

Embora o povo continuasse rebelde e sujeito às consequências de sua rebeldia, mesmo assim o Senhor continuava atraindo o seu povo para si. Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me inclinei para dar-lhes de comer. Oséias 11:4.

Abba é incansável na busca do filho alongado, eleito para ser conforme a imagem do seu Filho. Ele nunca se impacienta com a demora do fugitivo, pois em sua graça, ele sabe quando agir para que o pródigo caia em si e volte para o aconchego daquele que nunca desiste de amar incondicionalmente.

O Deus infatigável nunca se cansa em amar o inamável com o seu amor imorredouro. O verdadeiro amor nunca se cansa de amar o sujeito amado.

O amor de Deus não perde o tempo de validade e nunca caduca. Por outro lado, amor condicional é troca. Puro comércio. Uma condição positiva, seja ela qual for, pressupõe mérito, e este desqualifica a graça.

Qualquer valor pessoal, por mais insignificante que seja, invalida a obra da graça de Deus manifesta em Cristo Jesus. Sendo assim, o Deus da graça financia graciosamente a humilhação do arrogante, para que, pela graça, o quebrantado receba a suficiência de Cristo como única forma de sua aceitação pelo próprio Deus.

Deus, em sua incansável paciência, salva o pecador indigno pela graça, convencendo-o do pecado, por meio do Espírito Santo; santifica o salvo, também pela graça eficiente, mediante a vida de Cristo em seu interior; e quebranta o que está sendo santificado, pela mesma graça, através dos sofrimentos, a fim de que este quebrantado seja, de fato, a morada do Altíssimo, sobre a terra.

Deus trabalha o tempo todo incansavelmente. Ele nunca descansa, mas também não se cansa na obra da redenção daqueles que foram predestinados para serem conformes a imagem do seu Filho.

Tendo Deus começado uma boa obra na vida de alguém, certamente vai terminá-la. Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Filipenses 1:6.

Depois de vermos a incansabilidade Divina em sua natureza e em suas ações, temos, contudo, que apresentar uma área em que Deus se mostra cansado. É uma metáfora desconcertante. As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Isaías 1:14.

O Deus incansável se cansa desta adoração vazia e deste ritualismo sem qualquer significado. O Deus que nunca se cansa fica cansado com a nossa religiosidade humanista e totalmente oca.

Aqui precisamos fazer uma avaliação criteriosa. Será que o nosso culto não está sendo motivo de enfado Divino? Precisamos averiguar a nossa atitude de adoração diante do expressado cansaço de Deus em relação aos nossos rituais antropocêntricos e vazios.

Ó incansável Pai, dá-nos o adequado senso de adoração diante do teu trono de graça. Faze-nos verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Amém. Glenio Fonseca Paranaguá www.palavradacruz.com.br